
No texto A Felicidade das Redes Sociais, nosso assunto foi sobre como algumas vezes podemos nos sentir desconfortáveis ou incomodados nas redes sociais. Relembrando rapidamente o tema anterior, pelas lindas fotos e momentos felizes postados – recortes da realidade – é fácil olhar para a vida do outro como se fosse isenta das dificuldades e aflições, tais como nós vivemos no dia a dia. Somos apresentados à bela representação da vida presentes nas timelines, mas não somos apresentados ao lado ruim, o que não significa que seja inexistente.
Freud, um dos principais teóricos da psicanálise, disse que somos marcados essencialmente por nossos conflitos psíquicos e que uma das principais polaridades de nossa vida mental é entre o prazer e o desprazer. Acho que as redes se encaixam bastante nesse exemplo de oposição, já que nossa experiência pode ser bastante paradoxal. Ao mesmo tempo em que podemos nos divertir, conversar com várias pessoas e ter acesso a coisas novas, também pode ser fonte de angústia quando nos desperta sentimentos de mal-estar diante de todo aquele bem-estar aparente.
O que considero importante quando aparece essa angústia é o que procuro trabalhar pessoalmente e também com as pessoas que chegam até mim no meu trabalho: investigar o que esse desprazer me diz a respeito de mim mesma. Por que o post de um colega de férias pode me desequilibrar num dia difícil de trabalho? Será que me deparo com a minha frustração por trabalhar com algo que não gosto e que, por isso, é tão sofrido? Por que a promoção de um colega de trabalho me afeta? Será que talvez ele tenha uma habilidade profissional que eu gostaria de ter mas que não enxergo em mim? Por que fico incomodada ao ver a foto de uma família que me parece harmoniosa? Será que é porque reconheço as dificuldades de relacionamento que minha família enfrenta? Por que fico tão nervoso e desconfiado ao ver que o meu par curtiu aquela foto ou começou nova amizade? Será que consigo perceber minha autoestima fragilizada minando a confiança que tenho em mim e naquilo que conquistei em meu relacionamento afetivo?
As possibilidades de exemplo são inúmeras. Cada um sabe qual é sua ferida e qual o dedo a cutuca e a faz sangrar. A sensação de mal-estar que podemos sentir na experiência virtual – e real – é a denúncia de algum conflito não resolvido dentro de nós, despertado à consciência a partir de determinado estímulo que nos aparece. Um momento desse, apesar angustiante, pode nos fazer refletir e identificar secretamente nossas dores, pois é quando o que está público faz borbulhar o que está na esfera íntima e privada. E desenvolver a consciência dessa dinâmica psíquica é um passo bastante significativo em busca de nossa própria compreensão.